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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

EDUCAÇÃO: REFLEXÕES NECESSÁRIAS




A educação é um processo moroso que se inicia nos primeiros momentos da vida de uma pessoa, de um indivíduo, e se prolonga por toda sua vida. As fases são naturais e não podem ser ‘puladas’. Não se admite falhas neste processo. Deve ele ser constante, sequencial e cumulativo.
Houve tempo em que a educação era responsabilidade única do Estado enquanto poder político organizado. Só haviam escolas oficiais, reconhecidas e dotadas de poder absoluto na busca de seu objetivo: transmitir conhecimentos. Hoje ensinar é preparar o cidadão para o exercício pleno da cidadania.
Segundo Freire em seu livro ‘Pedagogia da Autonomia’1996, ensinar exige pesquisa, exige respeito aos saberes dos educandos; ensinar exige criticidade; ensinar exige estética e ética; ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo; ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação; ensinar exige reflexão crítica sobre a prática; ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural. Defendeu o referido educador a progressão continuada que, infelizmente, acabou sendo convertida em promoção automática, que se tornou no grande fantasma da educação.
Ensinar não é transferir conhecimento. Há necessidade de se ter em mente que ensinar exige consciência do inacabamento do educando e do educador, visto que o ser nunca aprende tudo sobre tudo nem ensina o que não sabe e nem mesmo tudo o que sabe.
Recentemente foi constatado que 26% dos professores da rede pública estadual afirmaram que seus alunos não sabem ler nem escrever. Entendo que a porcentagem é pequena, e com certeza as respostas tentaram ‘encobrir’ um percentual muito mais elevado, talvez até por buscar encobrir a defasagem em que o ensino realmente se encontra ou a própria participação do pesquisado no processo. A repetência no ensino médio é assustadora,somada à desistência, sendo necessário se destacar que a maioria dos alunos é aprovada pelo conselho, ou seja, é ‘empurrada’ para frente. Basta se ler as atas dos conselhos de classe onde predomina a expressão: ‘aprovado pelo conselho’, o que significa, foi reprovado, mas foi promovido para a série seguinte. Nesta fase o professor é conivente, pacífico, calado e concorda com o que os gestores da escola desejam,determinam a mando de esferas superiores. Semelhante procedimento é adotado no ensino fundamental.
Em 2010 o Estado de São Paulo obrigou as escolas a promoverem alunos que estejam em defasagem de idade, conforme a série. O processo se chama ‘reclassificação’, ou seja, o aluno tem idade para estar na sexta, sétima ou oitava séries, então ele ‘pula’ para a série conforme sua idade, mediante um procedimento de “provinhas” que são montadas e que não representam a verdade, tudo num verdadeiro ‘ circo educacional’. Promove-se o aluno sem nenhum ‘pudor’ didático ou  pedagógico. O criador deste processo deveria ser responsabilizado. Pensou no equilíbrio das idades mas cometeu um verdadeiro crime quando aos princípios básicos da educação.
O mercado de escritores sobre pedagogia da educação está totalmente inchado. A grande maioria dos autores nunca deu uma aula a não ser como aulas-modelos para clientelas montadas para o ‘espetáculo’ educacional. São teóricos que sonham enquanto os professores no batente das salas de aulas estão em constantes pesadelos.  Raríssimos são os que enfrentaram os 200 dias letivos mais 165 na preparação de todo o trabalho do período letivo. Das duas uma: ou rasgariam o que escreveram ou reescreveriam  tudo demonstrando o que realmente ai está.
O tempo, num passeio por um determinado espaço medido por anos, modifica o ser, os grupos sociais, os estados e até os pensamentos que foram entendidos como imutáveis por serem próprios da essência humana. O indivíduo, em processo de educação, se adapta ao tempo vivido. Absorve as ‘perfumarias’ da época e do meio onde vive.  Transforma-se. Transmuta-se de um ser natural em um ser produzido, montado conforme as circunstâncias e o desejo do poder político reinante. O que determina tudo e o que realmente interessa, são as ‘estatísticas’ positivas, números.
No sistema adotado recentemente, as avaliações para progressão continuada (introduzida em 1998, junto com o sistema de ciclos que praticamente extingue a repetência) serão feitas nas 2,4ª,6ª e 8ª séries e não mais apenas na 2ª,4ª e 8ª séries, que também eram presentes só no papel. De que adianta a avaliação se não há retenção? Se fosse ‘pra valer’, alguma coisa de bom aconteceria, mas na prática ficará, como antes, apenas no papel e os conselhos continuarão a ‘promover’ os alunos, mesmo que tenham notas vermelhas em todas as disciplinas e registrem, como condição ‘sine qua non’ presenças (física) dentro do mínimo necessário. O aluno sabe que será promovido e em razão disto, deixa as coisas acontecerem do jeito que for melhor e mais proveitoso para ele. O estudante bom deixa de estudar; o que não quer nada com nada, nada de braçadas nos seus conceitos de matar o tempo na escola. A criança na escola dá à família um tempo de sossego e não há mais interação plena entre os dois pilares da educação que são a família e a escola. Ambas estão totalmente divorciadas. Registro aqui meu repúdio à idéia da reprovação pela reprovação.
O processo de recuperação paralela ou mesmo de reforço são utopias e campeiam na área da criação imaginativa de nossos mentores educacionais. Se há reforço, há fracasso confesso do processo educacional vigente. E este fracasso, ocorreu por que?
Precisamos não só de escolas para todos, mas de escolas de boa qualidade para todos, sejam pobres, sejam ricos, se de fatos desejamos uma pátria forte, menos injusta socialmente. A educação funciona com vontade política. Somos responsáveis pelos homens públicos que colocamos no poder’.(Izabel Sadalla Crispino,Repetência Escolar,Supervisora de Ensino aposentada(2000).(grifo nosso)
Andy Hargreaves, em seu livro ‘Ensino na sociedade de conhecimento: Educação na era da insegurança’, afirma que vivemos em uma economia do conhecimento e que as escolas são as geradoras destas matrizes, já que a riqueza e a prosperidade dependem da capacidade das pessoas de superar seus concorrentes em criação e astúcia, sintonizar-se com os desejos e demandas do mercado consumidor e mudar de emprego ou desenvolver novas habilidades à medida que as flutuações e os momentos de declínio econômico assim o exigirem.
Ensinar é uma profissão paradoxal. Afirma Rubens Alves em seu livro ‘A alegria de Ensinar’ que o professor não morre jamais e que ensinar é um exercício da imortalidade. Dos professores (e das escolas) se espera que construam comunidades de aprendizagem; criem a sociedade do conhecimento e desenvolvam capacidades para a inovação, a flexibilidade e o compromisso com as transformações essenciais à prosperidade econômica do país e do educando.
Os professores de hoje se encontram presos por uma poderosa força de interesses e imperativos conflitantes. Um cipoal de legislação envolve seu trabalho e o transforma em repetidor de textos, de informações onde o conhecimento escoa para caminhos indefinidos e perigosos. E o que é pior, com os nervos à flor da pele, não só em razão dos salários percebidos, mas, em especial, porque sabem que o sistema está comprometido e com mínimas chances de sucesso.
O tempo flui eterna e continuamente. A educação age, o novo cidadão aflora e, no mesmo processo em que foi gestado continua a produzir novos cidadãos, à sua semelhança e também no mesmo processo de modificação ou de imobilização. Esta seqüência se instala continuamente e o produto da educação emerge e comanda novos processos numa interminável seqüência perigosa e contagiante.
Como uma virose, os produtos da nova educação e do implantado processo cultural, se tornam ‘modelos’ e os doutores, mestres e especialistas em educação, numa euforia preocupante, aplaudem a ‘ modernização do ensino’ como que o grande messias que era esperado para a redenção da espécie humana.
A questão da avaliação é um tormento para os professores. Regras e mais regras e o que se tem realmente é uma promoção automática disfarçada, onde só interessa a presença física do aluno, desmotivado ou não, aprendendo ou não. Retenção só por abandono e ainda assim há casos de promoção, com retirada do excesso de faltas para se poder diminuir ao máximo o número de repetentes. Números negativos causam mais temores do que cruz para vampiros. O processo da avaliação está semelhante a uma dona de casa que, catando feijões com defeito, depois de muito trabalhar, ao final, junta tudo e põe na panela. De nada adianta o esforço dos professores, visto que ao final, todos serão promovidos, gerando uma total sensação de impotência e inutilidade.
Modificam-se grades de ensino, criam-se promoções continuadas, fundem-se disciplinas e criam ‘blocos’ de matérias que são pensadas como soluções aos inúmeros problemas educacionais que enfrentamos no Brasil, em nossos estados e em nossos municípios desde a década de 60 com a famigerada criação de licenciaturas breves e plenas para engordarem as estatísticas frente ao mundo.
Os laboratórios educacionais continuam freneticamente na produção de ‘fórmulas mágicas’ pensando resolver a questão da transmissão do conhecimento, da preservação dos valores culturais, sociais, morais e políticos. Poções mágicas fantasiosas, sem ter o pé no chão e sem reconhecer os métodos utilizados ontem e que deram certo. Tentam apagar o passado com borrachas duras que só rasgam o papel e a nada chegam.
Posso parecer negativista no que aqui registro, mas isto tudo nasce da realidade concreta da escola hoje. Há pontos positivos a serem comemorados e não são poucos, apesar da alta dose de propaganda enganosa veiculada pela mídia e assinada por velhos discursos que a nada levam. Educar é um processo. Estas ‘invenções’ por meio de injeções venosas são paliativas. Uma vez interrompido, retomá-lo é doloroso. É como um tratamento médico que, defeituoso, precisa se iniciar no zero se o paciente não entrar em óbito antes.  As seqüelas destas interrupções no processo educacional são perigosíssimas e incuráveis. As gerações submetidas a estes procedimentos podem ser prejudicadas de forma irrecuperável no tempo e no espaço
O professor tem uma função complexa, singular, interdisciplinar, contextualizada. Complexa, porque precisa ter sensibilidade para perceber e acolher as diferenças individuais e, singular porque precisa desenvolver seu trabalho no nível e no ritmo de cada aluno, respeitando sua potencialidade, desenvolvendo suas habilidades e atitudes à medida que seus alunos se apropriam do conhecimento.
O processo educacional está doente e não a educação. Os gestores deste processo precisam acordar para esta realidade. É preciso baixar as armas e se propor a começar tudo de novo, antes que tarde demais. Feio não é mudar de idéias, feio é não se ter idéias para serem mudadas. O brasileiro é inteligente e capaz de produzir coisas muito melhores do que esta parafernália que se ostenta no país há mais de três décadas.
Um processo educacional defeituoso repercute em todos os demais segmentos da sociedade humana e alcança gerações futuras, com graves conseqüências no sistema de produção, uso, transmissão e evolução do conhecimento, sem se incluir aqui as questões de natureza social e familiar.
Educação implica em cultura. Em ambas a certeza num futuro melhor.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

AS CÉLULAS-TRONCO, ANTECIPAÇÃO DO FUTURO




           O  ser humano, enquanto ser pensante,é altamente contraditório em ações, atitudes, pensamentos, decisões e teme, sempre, o desconhecido, embora deseje conhece-lo ardente e constantemente.
            Estudos demonstram que há 3 bilhões de anos, na Era Cenozóica, já se constatava a existência de células. Formas de vida mais complexas, as células procariontes, deram as caras há 2 bilhões de anos com o surgimento da camada de ozônio; há l bilhão os eucariontes se fizeram presentes disseminando-se sobre o planeta. Há 600 bilhões de anos foram inaugurados os primeiros organismos multicelulares; há 400 bilhões de anos conhecemos os vertebrados; há 300 bilhões os répteis; há 200 bilhões os mamíferos e há “apenas” 100 mil anos surgiu o homem , descendo das árvores e pisando sobre a Terra.
            Mendel definiu as bases da genética,embora sem o saber, e hoje a célula é o alicerce científico que abre enormes possibilidades de o homem prolongar seu ciclo de vida. No início do século XX a expectativa de vida era de 30 anos. Hoje supera os 70, o que significa o dobro em um século. O bioquímico inglês, Audrey De Grey, da Universidade de Cambridge, aposta que o homem pode prolongar sua vida por mais de 1.000 anos. “Afirma Se o envelhecimento é um fenômeno físico em nosso corpo, o avanço da medicina poderá atacar a velhice da mesma forma como faz com as doenças”. Ele garante esta conquista com o combate à degeneração celular, a eliminação das células não desejáveis e o controle na mutação dos cromossomos e das mitocôndrias. Não se pensa aqui na superpopulação da Terra. Estamos falando em vida.
            No século XIX assistimos à criação de clones. A clonagem é a técnica de fazer um organismo, ou parte dele, por meio de reprodução assexuada (reprodutiva ou terapêutica). Surgiram vários movimentos contestatórios, especialmente quanto ao caráter laico do Estado, que deve governar mas não interferir nos assuntos de religião. Difícil esta parte,visto que a religião interfere nos assuntos do Estado,não só pela ação de alguns líderes religiosos  como também por parte dos adeptos.
            De tudo isso e mais muita coisa, assistimos no final de maio de 2008, os embates dos membros do Supremo Tribunal Federal brasileiro e seus ecos persistem até hoje. Houve época em que um cidadão foi condenado pela Igreja por ter sedado a esposa para realizar uma cesariana. Quase às portas de perder a cabeça, a qual a Inquisição desejava, defendeu-se dizendo que Adão foi feito dormir por Deus para ter sua costela retirada e fazer nascer Eva. Ganhou a briga. Interessante que em Direito definiu-se o começo da vida com a fecundação. Por que o mesmo direito reconhece como ser vivo e com direito à herança o indivíduo só depois de nascido, e vivo? Um natimorto não adquire direitos nem gera herdeiros. Não era até então um embrião e depois um feto?
            Esta discussão no STF mostrou que o Brasil fica sempre a reboque. O mesmo aconteceu com o projeto Genoma. Enquanto discutimos o óbvio, o tempo passa e a Ciência fica amarrada de forma semelhante como no período obscurantista. Será preciso que aconteça, outra vez o Renascimento, quando o homem começou a sair das trevas, da perseguição e do sacrifício de vidas humanas para que a humanidade pudesse viver melhor? Foram mais de quinze séculos para que se aceitasse que o Sol era o centro do Sistema Solar. Até então quantos morreram por causa desta teimosia da Igreja e outros setores em dizer o contrário?
            Entendo que o domínio das células-tronco é, na verdadeira acepção da palavra, um milagre científico. Milagre não se explica,bem o sei. O que está ocorrendo é uma dádiva. É a justificativa clara e plena de que o homem, pela ciência, pode fazer de sua vida e deste planeta o lugar ideal, o verdadeiro Paraíso, não o perdido, como escreveu John Milton em 1667, mas o eldorado da plenitude da vida humana. Este domínio científico transformando as células-tronco em mais de 220 tipos de células do corpo humano que poderão ser regeneradas ou reconstruídas é simplesmente fantástico. Deixados de lado os aproveitadores e os mercenários naturais de todos os sistemas humanos, sejam as pesquisas bem vindas e que seus frutos, em breve, apesar do atraso, possam ser reconhecidos da mesma forma como os transplantes vieram,foram contestados e mudaram a vida dos homens deste pobre e complicado planeta chamado Terra.

            Tanabi, fevereiro de 2011


CHARLES DARWIN, UM HOMEM DE VISÃO



         Há mais de um século e meio que o naturalista inglês Charles Darwin assombrou o mundo com o lançamento de seu livro ‘ A Origem das Espécies’, em 1859. O homem levou cerca de três bilhões e quinhentos milhões de anos para entender, ou começar a entender, que os seres vivos sofrem sucessivas evoluções no transcorrer de uma escala de tempo-espaço. A ciência levou todo esse tempo para colocar num pedaço de papel a ‘Teoria da Evolução’, e sua vitrina a ‘Seleção Natural’. Comparativamente a Mendel, já no início do séc. XX, que não sabia nada sobre o gene, também Darwin desconhecia este elemento. Suas observações pelo mundo foram dignas de um gênio. Sabia que sofreria com isso, mas, não fez como Galileu frente aos inquisitores.
         Descoberto o ‘fio da meada’, sabe-se hoje que o gene tem como função básica codificar proteínas, que por sua vez desencadeia inúmeras reações químicas próprias dos seres vivos, bem como já se sabe que o gene não atua sozinho, o que fez nascer um dos mais ambiciosos projetos humanos – o do genoma humano, também chamado proteoma humano.
         Aristóteles, no séc.IV a.C. já estudava biologia, apesar de ser conceituada apenas no séc. XIX. Em 1665, o inglês Robert Hooke iniciou o estudo das células. Lineu cria o primeiro sistema de classificação de plantas e depois de animais. No mesmo século James Watson e Francis Crick abrem a caixa de segredos da estrutura molecular do DNA e começam a decifrar o genoma, fato consumado apenas em 2000. A geologia, a paleontologia, a antropologia, a biofísica e a bioquímica, a etologia (estudo do comportamento animal) e modernamente da ecologia, tudo num só caldeirão da bruxa Ciência, fez com que Darwin suspendesse o véu da evolução animal, e em especial, do ser humano. A clonagem, seja ela reprodutiva ou terapêutica, bem como a nanotecnologia, já abre as portas da ciência do futuro.
         Parece que o tempo não é muito amigo do espaço, apesar do tempo só existir de houver um espaço. Ptolomeu, no século II, ‘bolou’ seu geocentrismo (a Terra no centro do Universo). Passamos por Platão, Aristóteles, Filolau de Crotona, Giordano Bruno, Galileu e só Copérnico, em 1543, conseguiu desbancar a Terra de seu trono central com seu heliocentrismo (o Sol no centro). A coisa quase pegou, mas passamos por Tycho Brahe, Kepler, Newton e só Jean Bernard Léon Foucault conseguiu provar, com seu famoso pêndulo, que a Terra gira em torno de seu eixo. Foram cerca de dezesseis séculos. Levando-se em consideração a questão tempo, Charles Darwin é um sucesso, visto que só ele, de fato e de forma cabal, explicou, ou pelo menos começou a explicar, a evolução da vida na Terra nestes bilhões de anos. É lógico que antes de Darwin alguns arranharam a questão evolução, o mesmo acontecendo com Foucault, com relação à rotação da Terra.
         Darwin estava sobre os ombros de seus antecessores, tal como modestamente afirmou Newton, mas Darwin estava sobre e soube enxergar e compreender o que se colocava diante dos seus olhos.
         Parafraseando Richard Dawkins, ‘por que as coisas existem?’. Por que precisamos explicá-las? O que é a História? O que é o homem? Por que existimos? No caso de Darwin, o que o levou a escrever seu livro? O que ele queria provar e a quem? Certo é que Ptolomeu foi um gênio ao pensar na Terra como o centro de tudo, visto que até então ninguém pensava em tão estranho assunto. Apesar de tudo, aplausos ao gênio que por suas idéias fez morrer, pela Inquisição, muitos que ousassem dizer ou mesmo pensar em contrário. Aplausos a Copérnico que colocou o Sol no centro do já conhecido Sistema Solar, mesmo que bastante tarde.  Galileu gaguejou e foi processado porque dizia que a Terra girava. Negou, mas Foucault provou que ele tinha razão. João Paulo II em 1992 também. E daí?
         Tem razão Richard Dawkins em seu livro ‘O Gene Egoísta”. Ele aplaude Darwin, mas comprova que a seleção natural é um ato egocêntrico da vida e jamais altruísta como se pensava e ainda muitos pensam. Não há gene altruísta, aquele que resulta no bem de todo o conjunto. Impera o gene individualista, visto que a seleção não é realmente natural e sim individual. Diz Dawkins “...o amor universal e o bem estar da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não fazem sentido do ponto de vista evolutivo”. Com Darwin, a vida inteligente da Terra alcançou a maioridade no momento em que o homem começou a compreender, pela primeira vez, a razão de sua própria existência e de como foi seu caminho desde seu surgimento no planeta.
         Pelo trabalho de Darwin, o ser humano busca entender, agora, qual seu papel neste formidável concerto da vida; neste estranho e maravilhoso rebento do Universo: a Terra.

         Tanabi, fevereiro de 2011



FAMÍLIA, ESCOLA E SOCIEDADE



         Nossos dicionários definem família como ‘pessoas aparentadas que vivem na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos. Pessoas do mesmo sangue, origem, ascendência. O conjunto dos caracteres ou dos tipos com o mesmo desenho básico’. (Mini-Aurélio,p.322). O ser humano começa na família. É na família que a criança seleciona seus valores. É na família que nasce a personalidade. É na família que se forja o cidadão. Do alto de sua experiência Pitágoras exclamava já no seu tempo: “Educa as crianças e não será preciso castigar os homens”.
         Escola, ‘estabelecimento público ou privado onde se ministra ensino coletivo. Alunos, professores e pessoas duma escola’. M. (Aurélio, pg.281). Lugar onde se transmite conhecimentos. Casa de formação cultural.
         Sociedade: ‘agrupamento de seres que vivem em estado gregário. Grupo de indivíduos que vivem por conta própria sob normas comuns. Comunidade’. (M.Aurélio, p.642).
         De posse destas três definições, o que dizer sobre o elemento vital do trio, o ser humano?  É o ser humano um animal que não sabe (e não pode) viver sozinho e que só sobrevive até doze anos sob total proteção dos seus ascendentes: os pais. Sob a ótica do direito até esta idade é uma criança. Sua tutela está totalmente sob a orientação, educação, preparo e estruturação da família. A família é a forja e seus membros,sendo equivalente ao martelo que molda o ferro em brasa. Trabalhando forte e continuamente este ferro se alcança o modelo desejado.
         É no seio familiar que a criança se torna num adolescente e de adolescente em adulto. Nos modelos que vê, vivência e prática, nascem dentro de casa, em torno de uma mesa de refeições, no quarto de dormir, na sala de visitas, na cozinha, na varanda e desembocam na rua, o grande ponto de interrogação que aflige a todos os pais e, mais modernamente, a sociedade como um todo.  Da rua chegam à escola, onde deveriam colocar em prática tudo o que foi aprendido no seio familiar e, em seqüência, adquirir informações culturais que levariam este ser à fase de cidadão em formação plena. Usei os verbos ‘deveriam ‘ e ‘levariam’ indicando que isto não mais acontece, sob nenhuma forma ou roupagem, neste estranho tempo dito moderno, ressalvados os casos excepcionais onde a família ainda está presente e em ação.
          A educação é dever da família e do Estado, visando o desenvolvimento pleno do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (art. 2º da Lei 9.394, de 20.12.96). Letra morta, infelizmente, em extraordinário grau. A família e a escola deveriam ser parceiras, sócias interessadas no processo e, sob nenhuma forma, admitir desvios ou insucessos em nenhum dos lados. Falhando uma ou ambas, como infelizmente está acontecendo, a sociedade pagará, como já paga, altíssimo preço. Pais têm medo dos filhos. Filhos enfrentam os pais. A escola já não mais informa como deveria tendo que suprir a falha da família a quem caberia educar. Como conseqüência, nem educa nem informa. O barril de pólvora é o educando, o futuro cidadão que sairá desta forja com sérios defeitos, partindo para uma luta de peito aberto contra a sociedade, a própria família e a escola. O caos se instala e o futuro se torna bastante temeroso.
         Os limites são instrumentos básicos em todos os processos, sejam eles educacionais ou nas várias áreas do conhecimento humano. Perdidos estes limites pouca coisa se poderá fazer. O afeto é insubstituível na formação do ser humano e ele está se tornando ausente na família e, por conseguinte, na escola e por conseguinte nos demais segmentos sociais. O resultado disto será um adulto vazio, frustrado com a vida e com a sociedade e, neste instante, nasce a delinqüência como forma de enfrentamento, o único instrumento que o educando, o ser em formação, tem para usar e usa magistralmente. As drogas se tornam no elemento explosivo de todo este sistema que, como um homem bomba, vai explodir e alcançar negativamente todo o corpo social.
         Sinal vermelho neste perigoso entroncamento: educando, escola, sociedade.
         Alerta !

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A DITADURA MILITAR NO BRASIL



             Para que não caia no esquecimento por parte dos mais adultos e seja de conhecimento dos mais jovens, é preciso jamais esquecer o que aconteceu no Brasil de 1964 a 1985, e para se entender o golpe militar de 1964, necessário se torna um pequeno recuo na história do Brasil. A este recuo podemos chamar de Terceira República Brasileira, com o afastamento de Getúlio Vargas em 29 de outubro de  1945. A União Democrática Nacional, a poderosa UDN era oposição ferrenha a Getúlio. A figura mais destacada era o empresário e jornalista Carlos Lacerda, somando-se a ele Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, Júlio Mesquita (O Estado de São Paulo) e a família Marinho ( Globo) É legalizado no Brasil o Partido Comunista Brasileiro, o PCB,dirigido por  Luís Carlos Prestes.
            Era chamado de ‘Partidão’ e a ele se associavam Graciliano Ramos, Jorge Amado, Caio Prado Júnior, Cândido Portinari, Luiz Carlos Prestes e outros. Com a queda de Getúlio assume o General Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático, o PSD. Em 1947 Dutra decreta a ilegalidade do PCB, sendo fechada a Confederação Geral dos Trabalhadores e mais de cem sindicatos e iniciada intensa perseguição aos comunistas. O Brasil rompe relações diplomáticas com a antiga URSS. Neste ano são fechados os cassinos e decretada a proibição dos jogos de azar (bicho).
            Em 1950 Getúlio se reelege pelo voto popular tomando posse em l951. Sob fortes e violentas pressões governa até 1954, sendo a última luta o famoso atentado da rua Tonelero, onde morre um auxiliar de Lacerda e este fica ferido. Getúlio morre no Palácio do Catete em 24 de agosto de 1954, havendo quem defenda o suicídio, com o o que discordo frontalmente. O caudilho havia enfrentado lutas maiores e emergido, apesar dos arranhões. Assume o vice João Café Filho. Em1955 é eleito Juscelino Kubistchek de Oliveira, tomando posse em 1956. Em 1961 toma posse Jânio da Silva Quadros, que renuncia em 25 de agosto. O Vice João Belchior Marques Goulart é impedido de assumir o governo, só o fazendo com a reforma da Constituição de 1946, por força e imposição dos militares, instituindo-se o Parlamentarismo no Brasil, com duração de 1961 a 1963 atuando como Primeiro-Ministro Tancredo Neves, depois substituído Brochado Rocha. É realizado no país em 1963 um plebiscito e o Brasil volta ao sistema de governo presidencialista. O populismo de João Goulart e suas propostas de reformas políticas acabaram por provocar intensa reação militar e popular, sendo derrubado em 31 de março de 1964, assumindo o governo em abril o general cearense Humberto de Alencar Castello Branco.
            Pelo Ato Institucional nº 1 são cassados mandatos de inúmeros parlamentares e políticos. Pelo Ato Institucional nº 2, foram  extintos todos os partidos políticos, ficando apenas dois: A Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Estava instituído o bipartidarismo no Brasil. Em janeiro de 1967 é decretada a sexta Constituição Brasileira, institucionalizando a ditadura militar no Brasil, que duraria até 1985. Em 13 de dezembro de 1968 é baixado o AI-5, conferindo ao Governo o poder de fechar o Congresso, cassar mandatos, suspender os direitos e o habeas corpus, instituindo a repressão, a censura plena e outras agressões.  Segue-se com o general Emilio Garrastazu Médici os doloros anos de chumbo, com o exilios,mortes,prisões e desaparecimento de centenas de pessoas.
            Durante estes anos o país passou por amargas experiências no campo dos direitos individuais, coletivos e humanos. A repressão acabou por alcançar a todos os brasileiros, em especial àqueles que se atrevessem a emitir opiniões contra os ditadores militares, repressão essa que ia dos altos escalões nacionais até uma simples vila no território brasileiro. Foram muitos os brasileiros exilados e perseguidos, inclusive mortos de forma anônima nas masmorras do poder militar.
A angústia e o sofrimento dos brasileiros contra o estado ditatorial implantado pelos militares em 1964 tiveram fim com a aprovação das eleições indiretas para Presidente e vice-presidente da República, fato que acabou sendo realizado depois de muitos sacrifícios pessoais de brasileiros de todos os cantos do país que lutavam e sonhavam pela redemocratização do Brasil.
 Eleição indireta, realizada em 1985 através de Colégio Eleitoral, acaba elegendo Tancredo Neves, para Presidente da República com 480 votos, ficando em segundo lugar Paulo Maluf, com 180 votos. Tancredo morre antes de tomar posse e assume o vice José Sarney. O poder volta, finalmente, para as mãos dos civis, restabelecendo-se eleições diretas e secretas em todos os níveis, devolvendo-se ao Brasil e aos brasileiros sua verdadeira identidade voltada sempre para seus ideais de liberdade.
A experiência vivida de 1945 a 1985 foi uma aventura que, apesar das grandes chagas deixadas, fortaleceu o brasileiro na necessidade de se fazer de nosso país uma verdadeira democracia, voltada para o povo, pelo povo e para o povo.
Há, porém, ainda muito por se fazer e devemos caminhar sempre na busca deste ideal que custou a vida de muitos brasileiros em nosso passado, que, com dedicação e amor à pátria, construíram nosso presente, cabendo a cada um de nós, agora, continuarmos a escrever a história de nosso país.
A História acontece e precisa ser rememorada e cultuada, visto que é através dela que um povo alcança sua plena e desejada democracia e transforme esta numa perfeita ferramenta da cidadania.

Tanabi, fevereiro de 2011.




O BRASIL E SUAS RIQUEZAS NATURAIS


            Nosso país tem seis biomas que impressionam o mundo. Temos regiões que encantam aos mais desavisados turistas ou colecionadores de fotos. Nossa diversidade biológica é praticamente própria, onde animais e vegetais coabitam em condições geológicas e climáticas com incríveis proximidades. O cerrado e a mata atlântica impressionam e se destacam. Usei a expressão ‘nosso’ e fico preocupado com o fato, visto que este ‘nosso’ é curiosamente do alheio pela forma como são tratados os biomas ditos brasileiros.
            A floresta amazônica está sendo sistematicamente devastada apesar das fortes pressões internas e externas. Desde a década de 70, mais de 67 milhões de hectares de mata já foi  ao chão, o que representa quase 20% da Amazônia original. Esta devastação tem raízes históricas. Aprendemos na escola que o ciclo do pau-brasil foi uma forma de surrupio da madeira vermelha pelos colonizadores. Pilharam tanto que hoje restam alguns exemplares em praças públicas. O ciclo da cana-de-açúcar já levou o Brasil a falência e o atual dará ao país uma viagem sem volta. Estamos ‘fabricando’ alimento para veículos, produzindo açúcar e compramos gêneros de primeira necessidade quando já fomos o esperançoso ‘celeiro do mundo’.
A outrora Mata Atlântica que ia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul hoje mostra uma nesga que não chega a 8% do original. Este bioma ocupava 1,3 milhão de quilômetros quadrados, restando hoje apenas 91 mil quilômetros quadrados. A região ainda reúne um elevado número de espécies de vegetais, por volta de 250 espécies de mamíferos, quase 1.000 tipos de aves, 300 de répteis e quase 500 tipos de anfíbios. É a área que mais está em perigo dentre os outros biomas.
            A falta de uma política clara (e corajosa) por parte do governo federal provoca inúmeros procedimentos em nome do tão propalado ‘progresso’. As disputas econômicas acabam falando mais alto que as normas criadas para o controle e proteção ambiental, bastando se ver o licenciamento concedido para construção do complexo hidrelétrico do rio Madeira com a construção das usinas de Santo Antonio e Jirau, no estado de Rondônia. A onda desenvolvimentista tomou conta do processo e tudo se resolveu em favor do progresso, é claro. Pergunta-se: de quem?
            Vemos em 3D os procedimentos de Belo Monte, em Altamira, no Pará. O governo diz que precisa desta usina e a inclui no PAC. Valores superestimados, ataque frontal ao meio e, outra vez, o progresso fala mais alto. Argumento: precisamos evitar novos apagões,termos mais energia para não sofrermos colapsos em ‘nossa’ economia. E, tal como aconteceu na Mata Atlântica, outros biomas vão sendo desmontados, lenta e gradativamente num processo de ocupação que caminha alimentado pela ganância e, sobretudo, pela corrupção.
            Forças externas, como sempre se somam aos processos, partidos dos vários segmentos do mercado mundial. Como antídotos frágeis, vemos os movimentos pela preservação da natureza que acabam virando meros ‘slides’ na montagem do filme principal. O Brasil contribuiu com o efeito estufa, assina o protocolo de Kyoto,  mas não tem obrigação de reduzir as emissões. Começamos com as capitanias hereditárias e estamos repetindo erros semelhantes, onde determinados ‘donatários’ do país e estrangeiros definem como usar a terra brasileira e o que dela extrair.
            O Pantanal cobre 1,8% do território nacional. É um autêntico viveiro ao ar livre, com mais de 3.500 espécies de plantas e quase 500 tipos de aves e praticamente 130 tipos de mamíferos  com 200 tipos de répteis e mais de 40 tipos de anfíbios.O Cerrado, o segundo maior bioma brasileiro, ocupa cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados, representando quase 24% do território brasileiro. Temos o cerrado, o cerradinho e o cerradão, com cerca de 10 mil espécies vegetais com cerca de 200 tipos de mamíferos, 600 tipos de aves, 225 tipos de répteis e mais de 250 de anfíbios. É uma dádiva da natureza e está, também, à mercê de ataques constantes que geram um enorme número de seres vivos em extinção rápida.
            Os campos sulinos emprestam beleza singular ao Brasil e são chamados de pampas gaúchos. São 176,5 milhões de quilômetros quadrados, representando 2% do território brasileiro, que se estendem em direção ao Uruguai e Argentina. São campos cobertos por gramíneas ostentando cerca de 3 mil tipos de plantas, cerca de 100 tipos de mamíferos e praticamente 500 tipos de aves. A Amazônia tem cerca de 4,2 milhões de quilômetros quadrados, equivalentes a 49,3 % do território brasileiro. Mais de mil rios formam a rede fluvial da região constituindo-se na maior bacia hidrográfica do planeta. Mais de 40 mil tipos de vegetais e mais de 1,3 mil de aves, cerca de 400 tipos de répteis e quase 500 de anfíbios. A caatinga  é limitada a 844,4 mil quilômetros quadrados de área, representando por volta de 10% do território brasileiro. É semi-árido e de solo pedregoso e único em todo o mundo. Possui  ‘ilhas de umidade’, assemelhando-se a oásis, vivendo ali cerca de 1.200 espécies de vegetais, por volta de 150 mamíferos, 350 aves e 100 espécies de répteis e 40  tipos de anfíbios.
            Nem muito quente, nem muito frio, o Brasil apresenta um clima que passa, em poucas horas, por várias modalidades de tempo. Com chuvas de verão, tempestades e estiagens, apresenta uma diversidade de variações que propiciam a produção de inúmeros tipos de grãos, frutos e folhagens na área das hortaliças. Pero Vaz de Caminha preconizou: neste solo, em se plantando tudo dá. E tinha e continua tendo razão, mas, a agropecuária, a mineração, o contínuo desmatamento para dar lugar à cana e outros produtos como a soja, somados à extração continuada de produtos minerais deteriora o meio ambiente e alcança a própria vida como um todo no planeta Terra. Não adianta comemorar a queda no ritmo de desmatamento na região amazônica. O que realmente o país precisa é dar um basta às tolices e abusos sob vários rótulos que grassam por todo os biomas do Brasil.
            Houve um tempo em que o governo pregava com ufania: Ou acabamos com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil!.
            Qual seria hoje o ‘slogam’ para o que estão fazendo hoje com os biomas brasileiros?

 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O SER HUMANO E SEUS ANJOS



         O ser humano não pode ficar sozinho, em nenhuma circunstância, seja ela qual for. A solidão absoluta só existe na ficção. Mesmo nos conventos mais fechados a solidão não está presente, visto que as freiras reclusas têm Jesus, seus santos, anjos e superiores. A solidão pessoal é quebrada pela presença concreta, palpável e indiscutível de figuras denominadas anjos, que se apresentam em forma de seres humanos, na grande maioria alados, com vistosas e alvas asas. Cristãos, muçulmanos e judeus têm seus exércitos de anjos, com suas hierarquias, poderes e funções específicas.
         Segundo um conjunto enorme de escritos, religiosos ou não, o nome mais usado para os seres guardiães que nos acompanham desde o nascimento até a morte, e depois dela nos auxiliam nas vidas posteriores, se resume em ‘anjo da guarda’. A expressão anjo vem do latim ângelus e do grego ággelos significando basicamente mensageiro. Na tradição judaico-cristã, que predomina em praticamente todo o planeta, o anjo é uma criatura celestial, portador de vistosas asas (alguns com duas outros com quatro) e a indispensável auréola em torno e sobre a cabeça, emitindo continuamente uma luz penetrante e vinculadora. A forma como o anjo se apresenta ao homem é variada, podendo ser uma criança ou um adulto, sem características sexuais e sempre com beleza ímpar. Os espíritas já dão ao anjo uma característica física assemelhada ao homem e mulher comum, chamados de espíritos de luz , sendo pertencentes a planos superiores de evolução humana, mas sempre inferiores aos anjos, que não experimentam processos reencarnatórios.
         Como não poderia deixar de ser, há anjos bons, maus e os dotados de certo grau de ambigüidade, conforme a ação de seu ‘protegido’. Os anjos estão em uma vasta coleção de livros e citações humanas. No Cristianismo é figura presente e constante na Bíblia desde Abrão até o Cristo. Os Evangelhos mantêm tais figuras unipresentes. São inúmeras as divisões de categorias dos anjos, mostrando uma hierarquia natural e bem próxima da própria humanidade. Em geral se classificam em Serafins, Querubins, Éons, Hostes, Potestades, Autoridades, Principados, Tronos, Arcanjos, Anjos e Dominações. Esta é a mais antiga e chamada de classificação de São Clemente e a mais moderna é a de Dante Alighieri, registrada em seu livro Divina Comédia, que indica: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Arcanjos, Principados e Anjos. Em todas as classificações conhecidas se inicia com Serafim, que são os anjos mais próximos a Deus e se termina com anjos, indicando que anjo é a menor categoria de tais entidades e, portanto,  mais próxima do homem. Estas categorias divinas, obviamente, não usam alimentos, como faz o homem.
         O Budismo e o Hinduísmo têm seus anjos sob a denominação de devas (brilhante) e, alguns, usam alimentos como os humanos. O Islamismo divide seus anjos em bons, fiéis a Deus e os maus, que são privados da graça divina por terem recusado a prestar suas homenagens a Adão, o ‘top’ da criação divina e motivo de ciúmes entre estes anjos e a criatura humana maior, o Homem. Na visão teosófica, a existência dos seres angélicos torna rica a literatura religiosa mundial. Entende que a categoria angélica foi criada por Deus para assessorá-Lo. Teólogos como Charles Leadbeater (A Ciência dos Sacramentos) e Geoffrey Hodson (O Reino dos Deuses), tratam do assunto e até dão detalhes do sistema que rege tais entidades.
         Nada escapa à tutela angelical. Também a Astrologia enfoca o assunto, indicando responsáveis por cada planeta do zodíaco, sendo o reitor do Sol Miguel; da Lua Gabriel; de Mercúrio Rafael; de Vênus Uriel/Anael; de Marte Camael/Samuel, de Júpiter Zacariel/Sadkiel/Zeus/Zacarias e de Saturno Orifiel/Cassiel. Os demais planetas não eram conhecidos na antiguidade.
         Os anjos mais conhecidos e invocados são os chamados ‘anjos da guarda, os quais têm invocação especial e própria, como por exemplo: “ Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade Divina, sempre me rege, me guarda, me governe e ilumina. Amém.” ( Igreja católica e espíritas)
         É bastante conhecida a ação do anjo mensageiro, chamados também de Anjo do Senhor. Esta categoria de anjo está presente nas mensagens que Deus enviou a determinadas pessoas da antiguidade bíblica e de outros livros considerados sagrados. Notável a presença deste anjo com relação a Abraão, a Hagar, Gideão, à Virgem Maria e nos momentos cruciais de Sodoma e Gomorra e do próprio dilúvio. Há aqueles que classificam o episódio da sarsa ardente a este tipo de anjo, representando a própria figura divina, bem como a entrega das taboas da lei a Moises.
         Interessante a participação de anjos dos conflitos celestiais, onde a inveja, a disputa pelo olhar de Deus e de lugar de mais destaque em torno do Trono Divino se torna na tônica humana. Lúcifer, o anjo mais próximo de Deus, acabou sendo expulso da presença divina por não se sujeitar às homenagens que todos deveriam fazer a Adão, a criação maior de Deus. A concessão do livre arbítrio ao homem o que é vedado aos anjos em todas as suas categorias, acabou sendo a pedra fundamental da discórdia. Lançado aquém do céu, Lúcifer busca até hoje demonstrar que sua tese não era errada, e que Deus jamais deveria ter criado o homem à imagem e semelhança do Criador. Vendo nisto uma humilhação a todos os anjos,e em todos os níveis.
         Outra figura angelical na teologia cristã é o Anjo da Presença. Esta figura não tem vida própria e sim uma forma-pensamento, representando o Cristo no sacramento da Eucaristia, onde o Deus Cristão está vivo, latente, presente e transubstanciado na própria hóstia eucarística. O espiritismo transubstancia este anjo na figura dos mentores espirituais que, indo e vindo nas escalas evolutivas, pode auxiliar os de círculos menores na ascensão a círculos mais elevados. Os umbandistas atuam através do ‘nego véio’, de seus guias, seus cantos e ritos, onde os ‘anjos’ atuam na missão de resolver e ou minimizar os problemas dos encarnados no cumprimento de seus ‘carmas’ ou destino.
         Cidinha D’Agostino, terapeuta holística, entende que cada um dos seres humanos tem um anjo guia protetor, jamais interferindo na vida de seu protegido, em seu livre arbítrio, mas, buscando evitar que determinados acontecimentos não se registrem, sem contudo, ingerir sob nenhuma forma no destino daquele.
         Enfim, o homem precisa de seus anjos para cumprir sua missão neste eterno vale de lágrimas. Esta ‘ necessidade’ humana vem de encontro com a própria instabilidade do espírito humano, sua inconstância, seus medos e suas fraquezas frente ao desconhecido, visto que o homem é o único entre os demais animais que conhece a força do tempo nas suas escravagistas divisões: passado, presente e futuro.
         O anjo é a força complementar que o homem usa como a uma muleta indispensável para a travessia dos anos da existência e que lhe auxilia na superação de seus obstáculos e ansiedades, desde o momento do nascimento até seu último momento enquanto matéria.