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segunda-feira, 15 de abril de 2013

A HISTÓRIA. O HOMEM E O TEMPO.




Passando os olhos sobre as histórias humanas e de alguns reis, líderes, exercedores do poder político e do poder religioso, constatei que a história real de cada um deles e de todos, numa estranha semelhança, pouco diferentes foram, sob vários aspectos.
Continuei a caminhar pelo calendário, numa linha do tempo, e constatei que, na história de cada estado brasileiro, para nos fixarmos em termos de Brasil, as lutas foram semelhantes e, também de forma bem próximas umas das outras,e  continuam sendo.
Voltei-me para a linha do tempo no que diz respeito aos municípios e, outra vez, pude constatar a semelhança nos acontecimentos antigos com os ditos contemporâneos e da mesma forma com o sistema que atualmente vivenciamos.
A história se repete, se renova e sobre os alicerces do passado se erguem os edifícios da modernidade, mas, no centro de cada estrutura, de cada segmento social, político, religioso e econômico, as coisas são semelhantes e até iguais, indicando que praticamente nada mudou com relação ao passado mais antigo, ao  passado mais recente e ao tempo atual.
O homem é um ser mortal e isto leva a uma modificação dos titulares do poder, sob todos os aspectos e formas. Uns ascendem ao ‘trono’ enquanto outros ‘caem’, são eliminados, substituídos e muitas vezes suas histórias apagadas ou modificadas de forma e a gosto dos detentores do poder presente, do ‘agora’. Já foram apagados nomes de faraós, de presidentes, de governantes, de ditadores das ‘estelas’ seculares da história. Já foram arrancadas ‘placas’ indicativas de uma época, de um tempo, como que se fosse possível apagar da mesma forma o passado. Já foram suprimidos nomes de titulares do poder de ontem a exemplo de como  o mar  faz sobre alguma coisa escrita  na areia da praia.
Histórias foram reescritas, recriadas e fantasiadas ao sabor do tempo na esteira dos séculos sob os interesses e justificativas mais descabidas e conflitantes.  Os que hoje tomam contato com a história do mundo e dela fazem parte devem cuidar para que a verdadeira história seja enxergada sob a camada atual de areia do tempo. Devemos fazer  aflorar todos os ‘momentos’ da história sem o que ela pode se tornar numa estória, irreal e fantasiosa.
Uma coisa, porém, não se perde em tudo isto: a alternância das forças, o  vai-e-vem do poder, a continuidade da roda do tempo que ninguém e nada pode deter. Nenhum homem poderoso pode impedir que a Terra continue seu giro em torno de si mesma e em torno do Sol num movimento eterno e incontrolável. O homem não controla, e nunca controlará, sequer, seu ciclo de vida. Todos nascem, crescem e morrem numa lei infalível e imutável, mesmo que prorrogada por alguns instantes por força da medicina ou da magia da própria existência.
O homem faz a história e é parte dela. A História não existe sem o homem. O historiador é o mágico que pode tornar a história palpável e conhecida. O tempo, porém, é o senhor de tudo e o juiz implacável cuja sentença é irrecorrível.   A velha e atualíssima lei da ação e reação está em pleno vigor. Ai daquele que ousar afrontá-la sob pena de nem pó se tornar por força do vento da eternidade.
Esse vento é forte, impassível, constante e varre da Terra, no mínimo a cada 100 anos, todos aqueles que se pensaram eternos e donos de alguma coisa e de alguma forma neste terceiro planeta do minúsculo Sistema Solar.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

OS NAMOROS DE ANTIGAMENTE

Segue artigo escrito pelo artista plástico Jocelino Soares citando o Prof. Antonio Caprio.
Veículado no Jornal Diário da Região de 31/03/2013.
Fonte: http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Opiniao/Artigos/130560,,Os+namoros+de+antigamente.aspx




Encontro, para minha alegria, numa das esquinas do centro de Rio Preto, o professor e historiador Antônio Caprio. Enquanto colocávamos a conversa em dia, aproximou-se de nós um amigo dele, a quem fui apresentado. Durante a apresentação, Caprio diz ao seu conhecido que eu era, dentre outras coisas, historiador caipira. A conversa durou mais alguns instantes e cada um seguiu seu destino. Mas o historiador caipira ficou “matutando” na minha cabeça. Nunca havia pensado nisso e nem tenho a pretensão de ser. O que faço, e com muito prazer, é contar aquilo que vivi no passado, onde fui testemunha de algo que não existe mais e que está somente na memória daqueles que, como eu, também vivenciaram o bucolismo do campo. Como escrevinhador, tenho a rara oportunidade de, por meio deste espaço, alumiar com a luz bruxuleante da lamparina o passado e trazê-lo à tona. Contar o modo de vida do caboclo, seus medos, suas angústias e também suas alegrias. Fico feliz quando encontro alguém que, ao ler minhas crônicas, se emociona ao se ver ali representado. Encontrei numa manhã de domingo, no Mercadão, o também professor e historiador Agostinho Brandi, e falávamos justamente sobre o jogar luz na história recente do homem da roça. Os fatos e os acontecimentos são puxados pela memória devido à falta de documentos, fotos e registros da vida do caipira. As histórias são passadas de geração em geração, por ouvir dizer sem datas precisas, mas isso pouco importa. O que vale são o sentimento e as lembranças que nós, caboclos e caboclas, fazemos questão de manter vivas em nossas memórias. Talvez no futuro nossos netos sintam desejo de resgatar a história de seus antepassados, e a vida do homem do campo será para sempre preservada. Por enquanto, vamos vivendo de lembranças.

E por falar em lembranças...

Lembro-me que em todas as tardes, depois do jantar, os homens se reuniam no terreiro para prosear e contar causos, enquanto enrolavam cigarros de palha. Eu ficava admirando os mais velhos contar histórias e de vez em quando soltavam baforadas do cheiroso fumo goiano. Ouvir suas aventuras e principalmente sobre como namoravam no passado era, para mim, algo indescritível. Os namoros geralmente iniciavam nos bailes de barraca. Os olhares se cruzavam, até que o cavalheiro tirava a dama para dançar. Se tivesse coragem, no primeiro bailado se “declarava” para a moça, falando dos seus sentimentos. Ela ficava ruborizada diante do galanteio e, se também estivesse enamorada, aceitava e, claro, a coisa ficava só nisso. Dançavam a noite inteira, sempre com muito respeito, rosto colado nem pensar, beijo, então, estava fora de cogitação. Quando o baile terminava, com autorização do irmão dela, caso permitisse, poderia acompanhá-la até sua casa. Iam de “bonde”, sem pegar na mão. Contava meu pai que uma vez foi levar a recente namorada em casa depois do baile. No caminho, com as demais pessoas por entre cafezais, teve a ousadia de tentar pegar na mão da moça e ouviu dela um sonoro: “Não sou cega”. Deu meia volta e acabou ali o namoro que ora se iniciava. Quando o idílio vingava, o moço era convidado pelo pai da moça a pedir para namorar em casa. Entre namorar, noivar e casar, não passava de meses. Caso o velho fosse contra o namoro, a alternativa dos enamorados era fugir. Muitas vezes casavam na polícia. Meu querido amigo Antônio Caprio, você, sim, é historiador, eu, dos causos sou contador.

JOCELINO SOARES
Artista plástico. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

segunda-feira, 18 de março de 2013

O OBELISCO DA PRAÇA SÃO PEDRO


A praça São Pedro é hoje um dos pontos altos do Vaticano, sendo a sede religiosa do Cristianismo. O Vaticano é uma cidade-estado. Fica dentro da cidade de Roma e tem cerca de 44 hectares e por volta de 800 habitantes, todos vinculados à Igreja Católica. Existe desde 1929 por força do Tratado de Latrão. Foi inicialmente doado pelo Imperador Constantino, que adotou o Cristianismo como religião no Império Romano, provocando o deslocamento do poder político e cultural da época, doação esta feita ao papa Melchiades em 313. No local o poder romano fez instalar o Circo Romano, local onde eram mortos os presos políticos do Império Romano, também chamado de Circo de Calígula, que governou Roma de 37 a 41 a.C. Próximo dali foi supliciado Pedro, o apóstolo principal de Cristo. Depois do declínio romano o local ficou abandonado e servindo como cemitério por cerca de 15 séculos. 

No século XVII, por ordem do Papa Sisto V, foi iniciado um projeto do artista barroco Gian Lorenzo Bernini(1598-1680) que criou todo o complexo de prédios que hoje se vê no local. A obra é magnífica e gigantesca tendo cerca de 240 metros de largura e lembrando mãos postas constituídas pelas colunatas e construções colossais. No início das obras, foi trazido de Heliópolis (Behrshemesh ) no Egito, um colosso de pedra com cerca de 40 metros de altura, em granito vermelho, originário da região de Assuão, em forma de obelisco(pedra com ponta em lança e base quadrada ou triangular).

Foi construído para ser erguido no centro de Heliópolis, no templo de Rá, na dinastia do faraó Manenenhat II e saqueado da região como muitas outras peças relativas ao Egito antigo. Trazido para Roma, era uma homenagem aos imperadores romanos Augusto e Tibério. Encerrava, originalmente, as cinzas de Julio Cesar, que depois foram transferidas para um museu em Roma. Na sua base quadrada existem 4 leões de bronze. O local atual foi ocupado em 1585 por ordem do papa Sisto V. O obelisco foi definido como o elo entre a antiguidade e a cristandade.

Na oportunidade da instalação definitiva, atuou como responsável o arquiteto Domenico Fontana, que fez construir torres de madeira com movimentos e mais de 300 metros de altura, sendo usado cerca de 900 homens para erguer o obelisco em obra que durou mais de 4 meses. Fontana também é o criador da famosa obra “Fontana di Trevi”(Fonte dos trevos), em rione Trevi, em Roma.

Interessante como o obelisco se tornou como símbolo em vários países e culturas. Existem diversos espalhados pelo mundo e ao longo da história. Os egípcios entendiam o obelisco como uma ponta de lança a perfurar as nuvens e dispersar para longe as forças negativas. Era a força do deus Sol, símbolo da masculinidade. Outros já entendem o obelisco como uma apologia fálica.

Já sob o domínio do Cristianismo, o local foi depois rodeado por suntuosas construções que hoje compõem o rico acervo do Clero romano. Depois de instalado, o símbolo pagão foi transformado em símbolo cristão com a instalação, no seu ápice, de uma cruz indicando que ‘Cristo venceu e está acima de tudo‘ e afirmam alguns, que no local existem pedaços da cruz original onde Cristo foi martirizado, fato não comprovado, e com certeza, fantasioso.

Curioso como o referido obelisco parece desaparecer nas cerimônias realizadas na Praça São Pedro. Quase não é visto nem observado pelas milhares de pessoas que por ali passam constantemente. Não desaparece, porém, de todas as torres das igrejas romanas, dos túmulos cristãos, das lapides em todos os cemitérios do mundo. A própria Torre-de-Babel é um exemplo da forma obelística (espeto). O símbolo é presente e constante em todas as culturas humanas. Várias entidades como a Maçonaria e assemelhadas usam este símbolo em suas obras e templos. Interessante como um símbolo pagão se inseriu e domina em praticamente todas as religiões do planeta.

Nascido para simbolizar o poder de Amon-Rá, o obelisco se tornado romano foi transfigurado num símbolo do poder religioso e institucional do Cristianismo. Um obelisco egípcio e então profano é o epicentro da Cúria romana e parece ali perdido no tempo e no espaço, onde a figura papal é que brilha agora no mundo católico.

Coisa dos tempos.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O CARRO DE BOI E SUA TRAJETÓRIA


O tempo é mesmo um fio que une o passado ao futuro passando pelo presente, que é fugas e intrometido. O transporte de bens móveis foi e é para o homem um elo que une o sistema antigo ao moderno e até ao futuro. A movimentação dos bens móveis na superfície do planeta é uma ação que remonta os calendários e sem dúvida permanecerá e a cada dia mais subjugando o homem, seu criador. 

As costas serviram como base do transporte inicial. O cangote, ou cogote, é a região da nuca que foi o sistema pioneiro onde o homem antigo acomodou seus bens móveis e os transportou pelos seus domínios de então. A roda nasceu e a carriola, como uma alavanca rodante, moveu o mundo, folgando as costas humanas. Mais bens e maiores distâncias fizeram nascer a carroça, um carro grosseiro, com rodas pesadas, alavancado por dois varais e pela força de um animal, inicialmente o cavalo, e depois o boi. O carroção deu lugar a mais peso e mais quilômetros. O homem já viajava pelos arredores onde nasceu. Se tornava, com isto, regional.

O homem se tornou viajante. O carro de boi o meio de viagem segura. Bens móveis e familiares se acomodavam nesta ‘máquina’ e as distâncias eram devoradas com a brisa no rosto, o calor nas cabeças e a poeira das estradas. No mundo, egípcios, chineses e hindus já usavam os bois para arrastar seus bens sobre rodas improvisadas. Em 1549 Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil já usava esta ‘máquina’. As roças dos engenhos se baseavam no carro de boi e suas juntas poderosas de bois criados para tal trabalho. Eram imprescindíveis para a vida no campo. A revolução farroupilha usou do carro de boi brasileiro transportando carretões de madeiras pesando de 12 a 18 toneladas. Cerca de 50 juntas de bois formavam a força de tração.

No século XVIII o burro ameaçou a primazia do boi. Os muares eram mais ágeis e não exigiam trilhas prévias e terrenos regulares. No final do século os cavalos assumiram os encargos e o carro de boi começou a ser proibido de transitar pelas cidades, ficando seu uso restrito ao meio rural. Os veículos motorizados invadiram o setor e o carro de boi e a carroça foram perdendo seus espaços e hoje estão restritos s pequenos pontos do país.

Um carro de boi autêntico tem a canga, onde se prende o cabeçalho ou cambão, colocada sobre o pescoço de dois bois, o canzil, forma de estacas trabalhadas que atravessam a canga de cima para baixo de modo que cada boi fique entre duas dessas estacas, a arreia, que são os suportes que atravessam de forma transversal o cabeçalho, a cantadeira, parte do eixo que fica em contato com a parte superior do chumaço, produzindo um cantar característico do carro ouvido a quilômetros de distância, a cheda, o cocão, o fueiro, a mesa, o recavém, o tambueiro, a brocha e a roda.

Os cultores do folclore não esquecem o carro de boi. Estes são lembrados em festivais realizados em vários locais, com destaque para o festival de Formiga, Bambui, Bertioga, Vazante, Macuco de Minas, Pará de Minas e outros locais. No Solar do Unhão, sede do Museu de Arte Moderna da Bahia, criado por Lina Bo Bardi, o carro de boi é o ponto alto da festa. Músicas sertanejas como ‘Boi de Carro”, de Tonico e Tinoco, eternizaram nosso mais antigo meio de transporte rural.

O tempo fez se aposentar o carro de boi, as carroças e por fim as charretes, mas não faz desaparecer da mente do caboclo natural, dos intelectuais que honram o passado com suas histórias e registros, a magia que tal engenho humano exerceu e exerce sobre todos nós. Está em nossa genética, em nossa história familiar e comunitária o sentimento de gratidão que todos devotam a este equipamento que nasceu do esforço do homem, conjugando as forças do animal, para fazer da vida humana o que ela é hoje, frente à tecnologia, sem se apagar o passado.

Nossa homenagem ao velho e inesquecível carro de boi.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A PROPRIEDADE E O HOMEM



Fala-se hoje, e muito, em propriedade, patrimônio, domínio sobre o que é imóvel por natureza como terrenos, prédios de todos os tipos, propriedade intelectual, direitos autorais e a coisa se perde numa extensa linha de definições. A constituição Federal ( art. 156,I) define a propriedade como predial e territorial urbana para fins de tributos. O dicionário diz que propriedade é qualidade de próprio gerando o direito de usar, gozar, dispor (um bem). Proprietário é quem tem a propriedade de algo. E daí? 

Fustel de Coulanges, em seu livro ‘Cidade Antiga”, um primor que deve ser lido por todos,em seu capítulo VI, discorre sobre a propriedade. A terra(o solo,o chão) sempre foi considerada sagrada, sem dono por seu um bem comunitário que a todos serve. Era um bem divino e indisponível como seu próprio fosse. O homem antigo era proprietário da colheita,jamais do solo,da terra. O solo na história antiga humana era o fundamento do lar, o local sagrado do sepultamento.Não se podia pisar no solo onde alguém havia sido sepultado. Até hoje, sem saber porquê, ninguém ousa pisar sobre um túmulo sem se condenar ou se censurar. Era inviolável e sagrado. 

Os antigos viam na propriedade a razão de sua própria existência. Era afeta à religião e tão sagrada como esta. A religião tinha como base a própria casa do homem, sua morada, a morada de sua família na linha do tempo. Nela tinha o altar que era cuidado com zelo e carinho e ali eram venerados todos os antepassados. Esta era a propriedade, Os gregos chamavam a propriedade de érikos e os latinos herctum. Nela, não importava o tamanho ou extensão, criavam seus rebanhos, plantavam seus alimentos, retiravam o sustento, criavam os filhos, honravam os mortos e veneravam a vida futura. Era intocável. Nenhum estranho poderia ali entrar sem a ordem da família, do chefe, do senhor. A casa era o recinto sagrado. Daí nasceu o direito inviolável do lar e que perdura até hoje. A religião que nasceu com poder sobre as almas também instituiu o caráter sagrado da propriedade. 

Platão, em seu ‘Tratado das Leis’, entendia que a ninguém cabia o direito de vender sua propriedade, sua terra. Ela não tinha dono e não podia ser alienada. Era natural, eterna, intransferível. O tempo escorreu pela plataforma dos anos e na Lei das Doze Tábuas a propriedade já podia ser vendida permanecendo vedada, apenas, a venda do terreno onde estavam sepultados os mortos da família. O confisco era execrado. Modernizou-se o sistema, como soe acontecer nas coisas humanas. A terra não podia ser vendida, mas, passou a ser transferida sua posse, seu domínio. Estava aberta a temporada da exploração da terra pelo sistema que mudou o mundo: o dinheiro. 

O herdeiro do fogo sagrado familiar herdava os bens. Nasceu, ai, o princípio da hereditariedade (heres necessarius) e por decorrência o princípio da sucessão. O homem passa, a propriedade não, dizia a lei. Não cabe ao herdeiro recusar a herança. Ela é natural e obrigatória. Nasce o domicílio. Os bens são partilhados entre os filhos como dever e obrigação de preservá-los para posteridade e os descendentes, honrando os antepassados. 

A propriedade era como o sangue passando de varão para varão. A mulher era exceção na sucessão. Só o filho varão podia dar continuidade ao culto da religião e da propriedade, uma coisa só. Não tendo filho varão a herança era transmitida ao irmão do falecido e na falta dele ao filho do irmão e assim por diante. O direito de testar (testamento) era desconhecido e impossível. Era um sacrilégio. O primogênito era o novo sucessor e em tudo, inclusive na autoridade familiar. 

Vai-se o tempo por sua ininterrupta aceleração e a propriedade, hoje, é uma mercadoria, em todos os sentidos, inclusive de forma pejorativa e perigosa. Mercadeja-se terras sob todas as formas. Grilou-se e grila-se terras sob as mais variadas formas. Famílias inteiras foram dizimadas pela posse das terras de seus antepassados. Loteia-se terras numa ânsia de riqueza indesculpável e inaceitável. Vendem-se terrenos com alguns metros quadrados e ali se faz alojar, em cubículos, uma família. Vendem-se túmulos, terrenos em cemitérios e até aluga-se tumbas. A exploração imobiliária virou coisa rentável. Os terrenos, antes sagrados, converteram-se em moeda, muitas vezes podre e corruptora. A religião virou mercadoria de alta rentabilidade. A lei de talião está mais forte do que rocha. 

Se Coulanges fosse escrever hoje seu livro sobre a propriedade estaria fadado a um enfarte fulminante. Nada mais sobrou, quanto à propriedade, da beleza dos tempos que se perdem na linha da vida humana, nem sua filosofia, nem sua arte e muito menos sua essência. 

Fruto dos tempos. Ah!, que tempos....

A HERÁLDICA E NOSSOS SÍMBOLOS



A Heráldica é uma ciência que estuda e interpreta as origens, evolução, significado social e simbólico; tem filosofia própria, valor documental e a finalidade de representação icônica da nobreza, isto é, dos escudos de armas. (Armando de Mattos,Heráldica e Genealogia,Lisboa,1930). Heráldica é a arte e a ciência dos brasões.

Um Brasão de Armas encerra em si uma alma, a alma do passado, a alma do presente, a alma do futuro. É uma insígnia imortal. Os conhecimentos da Heráldica se mesclam com o conhecimento das múltiplas ciências como a História, a Religião, a Estética, a Sociologia, a Etnografia, a Genealogia, a Cronologia, a Biografia, a Bibliografia, a Arqueologia, a Escultura, a Pintura e o Direito, nos ensina Antonio Miguel Leão Bruno.

Pedro I foi absoluto em concessões de títulos de nobreza onde se instituía brasões relacionados a barões, condes, viscondes, marqueses, etc. Por meio de um decreto de 13 de maio de 1816, D.João VI, ao cunhar as primeiras moedas brasileiras, já inseria nelas as armas de Portugal.

D.João VI governou o Brasil por 12 anos outorgou 5.610 condecorações, numa média de 467 por ano, tendo feito na Ordem de Santiago 104, na Ordem de Cristo 4.084 e na Ordem de São Bento de Aviz 1422.( p.203). Sucedendo o pai, Pedro I distribuiu 5.621 condecorações, inclusive 9 na Ordem de Santiago, 2.630 na Ordem de Cristo, 500 na Ordem de Aviz, 189 na Ordem da Rosa e 1.174 na Ordem do Cruzeiro, além de numerosos títulos de nobreza.(p.204). D. Pedro II outorgou 2.190 graus na Ordem de Aviz, sendo destes 44 grã-cruzes, 192 comendadores e 1954 cavaleiros na Ordem de Cristo. Agraciou 5.947 pessoas no grau de cavaleiro, 1.201 comendadores e 51 grã-cruzes, somando em apenas duas ordens 8.137 condecorações. Em seus quase 50 anos de governo afirma-se que foram distribuídas perto de 25.000 condecorações. Na ordem da Rosa ele fez 8.937 cavaleiros, 4.118 oficiais, 1.572 comendadores e 73 dignitários com 158 grã-cruzes. (p.204).

Na Regência Trina foi votada decisão proibitiva de tais condecorações pelo Executivo, cabendo tal poder apenas ao Legislativo. Diante de tais dificuldades, as honrarias eram ‘compradas’ a peso de ouro se tornando numa significativa forma de corrupção social.

No início da República, e até no final do Segundo Império, os títulos de coronéis da Guarda Nacional continuaram a ser distribuídos conforme o poder central e geraram enormes consequências nos imensos currais eleitorais do Brasil de então. .

Em 15 de novembro de 1889, nasce uma nova fase da Heráldica Brasileira e são criados os símbolos nacionais que são a Bandeira, o Hino Nacional, as Armas Nacionais e o Selo Nacional, definidos pela Lei número 5.700, de 01 de setembro de 1971 Hoje, a Heráldica se espalha pelo país nos brasões dos Estados, dos Municípios e muitas entidades privadas, persistindo, ainda, em algumas famílias tradicionais, inclusive no meio eclesiástico.

A História é refletida pelos brasões, pelas moedas, pelo selos, pela genealogia e pela memória. Não há povo sem memória. Não há historia sem o homem. Não há o homem sem a história.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

FELIZ BRASIL VARONIL



O mundo (entenda-se o planeta Terra) existe há cerca de 4,5 bilhões de anos. A vida se instalou por volta de 2,5 bilhões de anos após o ‘nascimento’ do planeta. O ser humano está sobre a Terra há cerca de um milhão de anos. No Brasil a República se instalou há 124 anos. A Constituição de 1988 está ai, mais remendada que cobertor de morador de rua há 24 anos. O ano de 2013 começa a engatinhar.

O que temos a comemorar antes da República e depois dela; antes e depois da queda dos militares; antes da Constituição de 1988(a esperada Constituição Cidadã) e depois dela e finalmente antes da globalização e depois dela, inclusive sua cria maior, a Internet?

Mais preciso que isto só o calendário Maia, exceto o fim que eles não previram nem escreveram.

Exagera-se na busca do reconhecimento dos direitos do cidadão sob várias óticas. Legisla-se de forma acalorada no reconhecimento de direitos e coloca-se na lixeira o item básico e importante: a contrapartida, os deveres, as obrigações.

Maiores e menores organizam-se em grupos, e estes grupos se ligam aos legisladores nos três níveis da pobre República dando a luz a textos ‘maravilhosos’ sob a ótica do humanismo cristão e não cristão. Etnias montam ‘bunquers’ objetivando resgatar direitos perdidos no tempo e acabam por criar a maior forma de expressão racista quando tentam igualar as raças, equivaler direitos, alcançar benefícios esquecendo-se do equilíbrio na balança no que diz respeito aos deveres, às obrigações de cada um e de todos, principalmente dos governos e dos despreparados governantes.

Inclusão, palavra moderna e constante dos grandes discursos dos pedagogos, filósofos da educação, mestrandos, doutorandos e outros tantos teóricos como que a varinha mágica numa teoria aterradora da verborragia de todos, praticamente sem exceção. Esta Inclusão se torna, na prática, um procedimento doentio e trágico, bastando se ver o que ocorre em muitas salas de aulas do ensino fundamental, em todas suas fases. É verdade, felizmente, uma pequena, diminuta porcentagem em alguns poucos projetos modernos com os pés no chão e mantidos pela sociedade aberta e liberal.

A erradicação da pobreza pelo método de dar um ‘lambari’ e se propalar um pintado de 30 quilos está ai, na mídia e nos bolsas de tudo financiadas pelos governos nos vários níveis. Cala-se a fome inicial. O que teremos no final deste ‘banquete’ de direitos e praticamente nenhum dever, nenhuma obrigação?

A propaganda fez de Hitler um ‘deus’. Deu no que deu.

Feliz 2013, cidadãos com bolsa e sem bolsa, com emprego e sem emprego, com mandato e sem mandato. Benvindo 2013 e seus estatutos do idoso, da criança e do adolescente, do consumidor, do torcedor de futebol, da juventude e tantos outros.

Feliz arrependimento ou consciência tranquila eleitores deste Brasil varonil.